Havia uma pintura só que ela era o fim de tudo

 

Dia desses fiz uma viagem de avião. Uma das minhas idiossincracias toscas que já aceitei de bom grado é o medo-beirando-o-pânico de altura, a ponto de interpretar as proximidades de qualquer grade de terraço como zona inóspita. Ficar em uma sacada a dezenas de metros de altura já é difícil, ficar em um veículo a milhares de metros de altura, sustentado apenas por cálculos abstratos de matemática e física, exige a concentração de um atleta olímpico.

Essa viagem de avião foi realizada de noite e sobre o mar. E o breu absoluto do lado de fora da aeronave era cortado apenas pela luz da lua e seu reflexo distorcido na água, um solitário feixe de algo no meio do nada, uma faísca dessa teimosia aleatória da vida cercada pelo vácuo eterno, quase como aquelas estruturas antigas que aos poucos vão sendo incorporadas pela natureza ao redor e se tornam parte integrante dela. Uma resga de existência sendo praticamente esmagada pela escuridão implacável que vinha de todos os lados em uma das imagens mais fantasmagóricas e assustadoras que já vi.

O universo é infinito e inifintamente inóspito e infinitamente indiferente. Nada sobrevive nele. Pela primeira vez eu senti a certeza de que a nossa resistência é temporária, que essa escuridão ao redor está sempre tentando entrar e ocupar o nosso espaço e que inevitavelmente vai conseguir, e não porque ela nos odeia ou porque está a caminho de algum destino, e sim porque é isso o que ela faz e vai fazer pra sempre, uma força imparável levando o nada engolir o tudo por pura indiferença, e fui tomado por um arrepio de medo e também de solidão.

Tava com Rostos na Multidão, da Valeria Luiselli, aberto no Kindle. Foquei nele e consegui, aos poucos e metaforicamente, colocar os pés no chão. A arte não resolve, mas às vezes resolve.

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