Primeira à direita passando Alpha Centauri

Talvez seja só impressão, mas a exploração espacial parece uma empreitada de pessoas extrovertidas. Implica em ficar semanas, meses, até mesmo anos longe de casa, sem qualquer chance de voltar pra recarregar as energias no sofá da sua própria sala enquanto assiste, na sua própria TV, a um vídeo com todos os gols da Copa de 1994.

E até a ideia de encontrar vida alienígena e uma improvável forma de comunicação traz mais desafios aos introvertidos: sobre o que falar? O tempo? Certeza que o pessoal de Vênus não se impressiona com os 35ºC de Porto Alegre no inverno. Futebol? Esportes? Comparar a altitude de jogar em La Paz com a dificuldade de chutar contra os ventos de 150km/h de Marte?

Pessoas extrovertidas são powerbanks e pessoas introvertidas são carregadores normais, e não dá pra se lançar ao espaço se você não for um powerbank.

Como o espaço é infinito, precisamos entender que ele contém dentro de si todas as possibilidades existentes, exatamente como os macacos escrevendo Shakespeare ou esta pomba dando um salto mortal. E isso implica no fato de que, em algum lugar do universo, em algum canto de uma galáxia, perdido entre nebulosas e estrelas e meteoros, existe um planeta inteiro de pessoas introvertidas.

A ficção científica tem a tendência de mostrar os humanos como os cupins e os alienígenas como uma grande dedetizadora, mas nada impede que eventualmente a humanidade assuma esse papel, embriagada em sua própria concepção torta de autograndiosidade e olhando para o universo e desejando transformar milhares de anos-luz em uma ponte aérea e despachando pessoas extrovertidas pelos quatro cantos da galáxia. Nada impede que o nosso tiro de largada da corrida espacial se transforme em um frenesi insaciável de conquista, o que inclusive seria menos uma surpresa e mais uma tradição. Muda só o tamanho do escopo.

Então eu fico aqui, olhando para o céu e pensando no planeta de introvertidos prestes a ser invadido pelo esquadrão de terráqueos extrovertidos. Uma vida eterna sendo puxados para cantar no karaokê porque é divertido. Eles merecem nossa empatia. Não há gols suficientes na Copa de 1994 para anestesiar uma invasão dessas. 

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